Barreto Coutinho
Breve Biografia
Ermírio Barreto Coutinho da Silveira (Limoeiro, 30 de junho de 1893 — Curitiba, 31 de agosto de 1975). Médico, jornalista, poeta e trovador Iniciou Direito na Faculdade de Direito do Recife, porém não concluiu o curso. Depois iniciou o curso de medicina na Faculdade de Medicina da Bahia, transferindo-se, no segundo ano, para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde concluiu o curso, em 1918, em plena epidemia de Gripe espanhola. Em seu Álbum de Doutorandos, editado com atraso por conta da necessidade de combate à epidemia, seu colega A. Xavier de Oliveira escreveu, a seu respeito:
“Médico, poeta, jornalista e satírico. Sua vida é de contínuo humor. Todos os colegas lhe reclamam sempre um pouco de atenção e de palestra, que sabe fazer espirituosa e interessante. Pode reinar o mais absoluto silêncio onde esteja uma centena de estudantes! Chegue o Coutinho e ter-se-á logo em que prender a atenção: um gesto seu, uma palavra sua, uma ideia faz despertar a todos do torpor em que, acaso, encontrem-se. Ainda mais. Nos assuntos de alta relevância, em que se empenha a sério, ninguém mais se interessa e trabalha do que ele. Talvez até guarde consigo um atroz recôndito inimigo que sua energia não deixa que se transforme em chaga cancerosa… Os seus dotes de espírito e de coração mandam que se veja nele um homem triunfador e feliz.”
Antes de sua formatura em medicina, trabalhou como redator em A Província, do Recife.
Como médico, empenhou-se, desde estudante, no combate à Gripe espanhola no Rio de Janeiro, transferindo-se, depois, para Curitiba, onde exerceu sua profissão.
Participação literária
Barreto Coutinho pertenceu às seguintes entidades literárias:
União Brasileira de Trovadores - seção de Curitiba (foi seu primeiro presidente); Sociedade Brasileira de Escritores Médicos; Academia de Letras José de Alencar; Centro de Letras do Paraná; União Brasileira de Escritores e Associação Profissional de Escritores do Paraná. Publicou: Um médico de saúde - 1959 (memórias); Radiações do ocaso - 1969 (poemas); Florações do outono - 1970 (poemas). Foi homenageado pela Academia Brasileira de Médicos Escritores, como patrono da cadeira 41.
Em 1912 o jornal A Província publicou um poema de Barreto Coutinho intitulado Mãe.
A quinta estrofe no original era:
“Uma vez vi-a rezando
aos pés da Virgem Maria;
era uma Santa escutando
o que outra santa dizia. ”
Um anônimo desgarrou-a do poema, alterou o primeiro verso e a divulgou como uma trova. Muitas vezes creditada a outros autores, até que em 1968 a União Brasileira de Trovadores deu oficialmente o crédito ao verdadeiro autor. Eis que a autoria foi comprovada por arquivo encontrado na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, de um exemplar do jornal «A Província» de Recife, de 28 de janeiro de 1912, que publicara a poesia de Barreto Coutinho na primeira página.
A trova, modificada e famosa, diz:
“Eu vi minha mãe rezando
aos pés da Virgem Maria;
era uma Santa escutando
o que outra santa dizia. ”
Trovas
Destino é força que esmaga,
credor austero, tremendo;
manda a conta e a gente paga,
sem saber que está devendo...
Perto, sóis, ao longe, estrelas,
as mães não nos deixam sós:
se vivas, moramos nelas;
se mortas, vivem em nós.
Quando a sorte me arremessa
às mágoas, elas têm fim,
pois minha mãe nunca cessa
de pedir a Deus por mim...
Mãe - alma querida e santa,
astro de divino brilho,
cuja luz a treva espanta
dos dissabores do filho...
Do teu olhar já notei
que até desprezo me vem...
e, apesar disso, não sei
deixar de te querer bem...
Não dês tanto desapreço
a quem tanto te quer bem!...
- Este amor que te ofereço
eu nunca dei a ninguém!
Reencarnação, quem duvida?
Verdade não há mais forte!
Quando a morte extingue a vida,
surge outra vida na morte.
Diz a cabra, dando leite
ao cabrito, o quanto pode:
- Mame, meu filho, aproveite,
enquanto não fica bode!...
A título de curiosidade abaixo o poema
Mãe de Barreto Coutinho
MÃE
Barreto Coutinho
Mãe — alma querida e santa —
astro de divino brilho,
cuja luz a treva espanta
dos dissabores do filho.
Mãe — criatura tão cara,
do filho o mais santo altar... —
Quem perde essa gema rara
nunca mais há de encontrar!
Mesmo as aves, essa eterna
verdade mostram nos ninhos:
que se fez a alma materna
de amor, ternura e carinhos.
Quando a sorte me arremessa
as magoas, elas têm fim,
pois minha mãe nunca cessa
de pedir a Deus por mim.
Uma vez vi-a rezando
aos pés da Virgem Maria.
Era uma santa escutando
o que outra santa dizia...
Se uma coisa me tortura
e o pranto aos olhos me vem,
minha mãe — santa criatura
chora comigo também!
E então nos seus olhos leio
meu pranto o que há lhe causado: —
Se magoas ao santo seio
que a dor tem santificado!
Por vossa infinda bondade,
Deus que eu creio e reconheço,
dai, pois, a mais longa idade
ao ser que eu tanto estremeço!